Sentir o cheiro de terra molhada e poder tocá-la é algo precioso. Seguro entre os dedos um punhado de terra úmida e observo-o bem. O que há além de terra? Grãos minerais, microorganismos, matéria orgânica...Há toda uma vida num pouquinho de pó.

“Mas da terra saía uma corrente de água que rega o chão. Então do pó da terra, O Senhor formou o ser humano. O Senhor soprou no nariz dele uma respiração de vida e assim se tornou um ser vivo.” Gn.2.6-7

Então somos todos isso: um punhado de terra molhada e soprada. Hapirus, “os cheios de pó”, como os hebreus no Egito. Um punhado de terra moldada à imagem e semelhança do Criador. E que Artista criativo! Da água regando a terra fez o sopro doando a vida, o sangue alimentando o cadáver! Da terra vermelha, homem vivente!

“Você foi feito de terra e vai virar terra outra vez”. Gn.3.19b

De grãozinhos de pó a grãozinhos...de pó – o ciclo da vida. A essência humana seria monótona e sem sentido se fosse apenas isso.

Contudo, Deus quis muito mais. E eu O amo mais ainda por isso. O Eterno selecionou pacientemente, ao longo dos anos, grãozinhos preciosos com os quais ele formaria, de novo, com suas próprias mãos o melhor amontoado de terra já existente, poeira infindável.

Um destes grãozinhos foi o primeiro homem que Deus criou – Adão, Terra Vermelha. Tudo começou aqui. Você já se imaginou sendo moldado pelas próprias mãos do Criador do Universo? Adão teve esse privilégio. Deus não disse “Façam-se olhos!”, “Produza a mente!”, “Haja pernas!” ou “Ajunte-se o pó!”, Ele fez. O Eterno Se preocupou. Ele Se ocupou: tocou a terra, modelou o homem à sua imagem e semelhança e gostou do que fez.

Mas, Adão desobedeceu a Deus fazendo uma escolha errada, não confessou seu erro, culpou a sua companheira – Eva - e acabou virando pó. Antes foi pai de Caim que matou seu irmão Abel e foi pai de Sete, um filho à sua semelhança. Sete foi pai de Enos que viveu na terra quando começou a se invocar o nome do Senhor.

Aí vieram Cainã, Maalaleel, Jarede e, Enoque, o homem que teve comunhão com Deus e não tornou ao pó. Matusalém, filho de Enoque, viveu quase um milênio e por pouco não alcançou o Dilúvio, mas viu a Arca de Noé, seu neto, filho de Lameque, sendo construída. Noé, que obedeceu a Deus e acreditou em coisas que iam acontecer, mas que não podiam ser vistas, gerou a Sem.

E nesta mesma linhagem foram escolhidos outros grãos. Terá foi pai de Abrão que morava em Ur dos caldeus e que abriu mão de todo seu conforto e passou a habitar em tendas no deserto, aguardando sua Terra Prometida, onde manava lei e mel. Abrão não hesitou em oferecer seu filho prometido em sacrifício a Deus e hoje é conhecido como pai da fé e também pai de Isaque e avô de Jacó.

Jacó, um grãozinho singular, foi uma poeirinha no deserto que usurpou o dobro da herança que lhe cabia e a benção da prosperidade que era de seu irmão. Este mesmo Jacó, cujo salário foi mudado dez vezes, foi humilhado, mas lutou com Deus e com os homens e recebeu uma benção só sua, feita sob medida.

Judá foi um dos doze filhos de Jacó e foi pai de Peres e de Zerá por Tamar, cuja ousadia preservou seus filhos quando foi rejeitada. Peres no Egito gerou a Esrom que gerou a Arão que foi pai de Aminadabe. Naasom, filho de Aminadabe, saiu do Egito com Moisés e todo o Israel em direção a Canaã e no deserto gerou a Salmon, que foi pai de Boaz, filho de Raabe e que tinha sido prostituta. Boaz, instalado em Belém, foi pai de Obede, filho de Rute, a moabita que por amar a sua sogra adotou o povo de Israel como seu povo e O Eterno como seu Deus.

Davi, o homem segundo o coração de Deus, foi pai de Salomão - o rei sábio - filho de Bate-Seba, com quem o rei Davi adulterou, mas a quem Deus permitiu que se tornasse a mãe de um rei.

Toda uma safra real! De Abias a Joaquim. Aí aconteceu o exílio babilônico. Zorobabel, neto de Joaquim governou enquanto foi construído o segundo templo de Jerusalém. Abiúde, presenciou a reconstrução dos muros por Neemias e gerou a Eliaquim.

Depois, se seguiram outros grãos até conhecermos José. Sim, José, aquele carpinteiro de Nazaré cuja mulher era Maria.

A essa altura, se conseguiu ler toda esta lista de gerações, você pode se questionar: “Pra que falar de tanta gente? Tudo bem que tiveram uns reis, mas...o que significa tudo isso?” Só o Todo Poderoso pode responder. Entretanto, você sabe o porquê deste milagre. Algo dentro você fala intimamente e incessantemente. Talvez você não queira escutar, mas deixe-me lembrá-lo: “Ei, o Deus Eterno ama você!”. É, você mesmo – um punhado de terra especial dentre outros mais de quase sete bilhões que existem hoje. Ele demonstrou isso. Deu forma a esse amor. E sabe qual foi o material que Deus usou? Terra. Grãozinhos de pó, como você e eu.

De sessenta e duas gerações, punhados de terra, Deus formou um corpo para Si. Do mortal fez o imortal. De uma genealogia que misturava párias e nobres formou o homem que transformaria o destino de outros homens como ele. Jesus, o próprio Deus Encarnado, veio ao mundo e viveu como um de nós – simples mortal. Expressou Seu amor à humanidade, fazendo-se o lixo do mundo, agonizando numa cruz como um marginal da pior espécie.

“mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” Fp.2.7,8

Seria sem sentido se tudo terminasse naquela sepultura fria de Jerusalém. Deus quis muito mais. Três dias depois de morto, Jesus ressurgiu da terra. E não apenas ressuscitou para morrer outra vez como Lázaro e tantos outros. Ele ascendeu aos céus de volta à Sua Glória Eterna.

Se Cristo não tivesse ressuscitado eu não estaria aqui falando sobre isso e você não teria motivos para crer que o que estou dizendo é verdade. Ele – O Verbo Eterno – criou tudo e

“...transformará o corpo da nossa humilhação, para ser conforme ao corpo da sua glória, segundo o seu eficaz poder de até sujeitar a si todas as coisas.” Fp. 3.21

“... refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” II Co.3.18

De um punhado de terra, o Criador fez o homem. Do homem – punhado de grãos – através de Cristo, Ele formou pedaços de glória. Assim como punhados de pó formaram o corpo de Jesus, nós , transformados em pedaços de glória, por Sua graça, formamos a Igreja– O Corpo Espiritual de Cristo. Um dia, habitaremos num lugar que é só glória – a Santa Jerusalém -, que tem a glória de Deus cuja luz resplandece, uma

“cidade não necessita nem do sol, nem da lua, para que nela resplandeçam, porém a glória de Deus a tem alumiado...” Ap.21.23.


A vida humana não se limita apenas ao pó. Fomos criados para mais. Uma alma composta de pó e deidade. De um lado o divino, do outro um punhado de terra. Começando em baixo, seguimos para cima. Do pó do chão até ao sopro eterno de Deus! De grãozinhos de pó a pedaços de glória! Que presente! Que transformação! E quando tudo isso acontecer não mais voltaremos ao pó.